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[O Essencial - Conto 4] Tayna

13 de mar de 2015


Eu comecei a usar drogas ainda bem nova, fumei maconha pela primeira vez aos quatorze, cheirei aos dezesseis e aos dezessete comecei a beber. Até o ano passado eu estava na rua durante todo meu tempo livre, gastando o pouco dinheiro que recebia do trabalho como recepcionista em uma biblioteca.
   

Eu não culpo minha mãe, que sempre teve uma vida “livre” ou meu pai que saiu de nossas vidas quando eu tinha doze anos, culpo tudo e todos ao meu redor, o ser humano é hipócrita e ridículo e me incluo nessa classificação, chegou um ponto da minha adolescência que já havia aceitado não ter uma vida como a de todas as outras meninas, e não queria ter o mesmo destino que minha mãe: Mãe solteira, que sai para noitadas e deixa a filha chorando sozinha trancada em casa.

   
Mas foi por nos duas que decidi mudar, vê-la sofrer me faz sofrer, e parte dessa dor era provocada por mim, então em um uma segunda de muito tédio, como era de ser, enquanto pensava no assunto, decidi me internar em uma clínica de reabilitação. Além de poupar o dinheiro, pois estaria longe do vicio, quem sabe o que eu poderia fazer, gastando meu tempo com algo que valesse a pena. E assim aconteceu, um pequeno passo, mudou minha vida.

- Bem vinda! Nos falamos por telefone, meu nome é Deia. – Disse a enfermeira que iria me orientar durante minha estadia lá. Ela era rechonchuda, de cabelos mal pintados de loiro, presos num coque bem apertado, seu jaleco branco que fez lembrar de uma dentista que frequentei alguns anos atrás.

 -Prazer, Tayna. – Respondi, ainda um pouco nervosa.
   

A clínica era bem barata, bem escondida, no meio do mato, era simples e minha mãe podia pagar, o namorado dela que falou sobre, disse que seu sobrinho “problemático” tinha ido para lá. Fiquei curiosa para saber como ele seria, nunca vi nenhum parente daquele cara, apesar de legal, nos não conversávamos muito. E eu não poderia estar mais errada sobre o tal sobrinho.

   

Meu primeiro dia foi horrível, pensava estar em uma prisão, apesar do clima agradável e do amplo espaço para me “exercitar”, o máximo que fiz foi caminhar, muito, dando voltas ao redor da construção. E em uma dessas caminhadas, no segundo dia, vi um rapaz deitado na grama de braços e pernas abertas. Por algum motivo me senti tentada a deitar ao seu lado e ver o que ele olhava, e depois de passar por ele, lembrei de várias vezes que não fiz o que eu queria fazer, voltei e me deitei ao seu lado.

   

Ele simplesmente me olhou com uma cara inexpressiva, do tipo que faria qualquer um se afastar, mas não foi o que fiz, eu o encarei de volta, ele sorriu. Era magro, cabelos escuros e bagunçados, suas olheiras debaixo dos olhos faziam sua pele pálida se destacar, eu o achei bonito, sempre gostei de caras diferentes e ele parecia ser desse tipo.
- Oi – Ele disse.


- Oi.

- Prazer, Thiago! – Ele postou sua mão para cima, para nos cumprimentarmos. Estiquei o braço e toquei sua mão fria.

- Tayna!

- Gosto desse nome! – Ele disse, voltando a olhar para o céu claro.

- Eu também, obrigada. – Falei, seca. Depois de uns segundos de silêncio eu perguntei. – Por que está olhando para o céu?

- Não tenho muitas coisas para fazer aqui... Gosto de nuvens... Gosto de ficar deitado, é como se eu estivesse dormindo, mesmo estando beeeem acordado, se é que me entende. 

– Ele me olha, esperando uma resposta ou sei lá.

- É... Mais ou menos. Achei que o processo de desintoxicação seria bem pior, tipo, tem gente ai que nem sai de dentro do quarto, ou fica louco sabe.

- Sim. Vai ver nos não éramos viciados o suficiente. – Eu olho para as nuvens que passam devagar sobre nós. Eu vejo uma com forma de fones de ouvido, me lembrando que não ouço música a um bom tempo e isso me deixa chateada, ai vejo uma com formato de capsula, uma agonia enorme invade meu corpo, uma vontade de chorar, de gritar, de esmurrar alguém ou a parede mesmo, até minha mão sangrar. Do nada ele ri. Me tirando do transe paranóico. Eu o encaro. Gosto dele.
   
Mais tarde descubro que ele era o tal sobrinho problemático do namorado da minha mãe.
   
Dia Quarenta. Nada fora da normalidade do lugar, eu e Thiago começamos a namorar, estamos sempre juntos, conhecendo um ao outro, matando o tédio um do outro, as pessoas mais problemáticas que nós, fazem show, eu e ele rimos muito, tá, eu sei que não é engraçado, até por que podia ser um de nós no lugar deles, mas não conseguimos resistir, uma vez um cara começou a fazer estrelinhas por todo o quintal gritando algo como “Traíra! Maldita erva!”, até parar e vomitar seu café da manhã, ele parecia realmente com raiva, podia se ver as marcas que suas unhas deixaram no próprio pescoço, ainda assim, a cena foi hilária.

   

Tínhamos nos beijado na chuva, no frio e debaixo de cobertas, éramos íntimos, em todos os sentidos, ele era compreensível e normal, não forçávamos nada, tudo era natural, eu me sentia ligada a ele, mais forte que qualquer vicio que viesse a minha mente na madrugada, mais forte que qualquer sonho de vida que já tive. Sem ele, eu precisaria mais que um tempo em uma clínica, precisaria de uma vida, em lugar nenhum. Ainda não tínhamos feito, ele não tocava no assunto e eu gostava de esperar mesmo um tempo, quando em uma tarde linda e fresca eu ia falar com ele, ele disse: 


- Eu quero sair! – Ele estava sério.

- Como assim? Você disse que iria ficar pelo menos três meses antes de poder sair.

- Sim, mas me sentindo preso aqui, não quero sair pra usar nada, só quero ver pessoas, sendo pessoas normais, sabe quando dizem que a gente sente falta quando não temos mais?

- Eu sei! E também quero sair, mas agora? Logo vamos poder ir para casa!

- Eu sei disso! – Nunca o tinha visto tão sério, mas ele não parecia irritado.

- Então vamos! – Ele me olha e sorri.
   

O sol estava alto, o muro é bem alto, deve ter mais de dois metros, mas usamos uma árvore bem antiga e grande para pular. Nós saímos sem rumo, estávamos a uns vinte minutos de carro da cidade, a pé levaria pelo menos uma hora até chegarmos a algum lugar.


- E ai, o que a gente faz agora? – Perguntei depois de um tempo andando.

- Tem um bar, ou uma casa logo a frente, lembro quando estava vindo pra cá. Você não?

- Não. Não lembro do percurso, estava pensativa demais para olhar pela a janela. – Eu estava ficando irritada, mas logo vi a construção a frente.

- Ali! É só pegarmos algum meio de transporte emprestado.
   
O casebre era bem simples e rural, envolto por uma cerquinha baixa de madeira, encostada na entra tinha uma bicicleta, que pegamos emprestada.


O trajeto até a civilização foi tranquilo, fora uns buracos aqui e ali, quando vimos a cidade, vimos também um pasto que teríamos de cruzar, o sol já estava se pondo e lá fomos nós para a grande aventura.

   

Quando chegamos na metade da planície ouvimos o barulho de uma moto e paramos, estávamos sozinhos até então, mas o barulho chegava mais perto, quando olhei para cima não acreditei...

- AI MEU DEUS! Olha lá Thi!! Um ET! – Eu gritei da garupa. Ele se virou e viu. A forte luz vinha em nossa direção. 

Tudo acabou ali, eu pensei...



Texto por Rafael P.c
É isso ai, espero que gostem, até a próxima semana! UUUhhhh Agora a coisa esquenta. : )
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